Se a culpa é de todo mundo, ela acaba não sendo de ninguém

A tragédia de Brumadinho é o assunto do momento, e, por mais que não se queira falar sobre ela, é mais do que preciso. Mais de cem pessoas morreram e, dez dias depois, o número não para de crescer.

Foi a junção de tantos erros que chegar ao motivo principal vai ser uma tarefa dura, mas extremamente necessária para evitar novas tragédias. Algo que já deveria ter sido feito quando o primeiro incidente aconteceu em Mariana, mas que foi negligenciado.

De lá pra cá, o faturamento da Vale só aumentou. A empresa teve recorde histórico de produção de minério em 2018 e, consequentemente de lucros. Isso levou a uma suspeita de que a Vale se focou muito nos lucros e negligenciou a segurança. Acho que ninguém duvida disso.

Na última quinta-feira, o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, afirmou que o rompimento da barragem foi rápido demais, o que fez com que a sirene de alerta, que deveria soar em caso de algum incidente, fosse engolida pela lama.

Isso, por si só, já seria engraçado, se não fosse a prova cabal da burrice ou do descaso da Vale com seus trabalhadores e com as pessoas das redondezas. Afinal de contas, como pode alguém construir um restaurante logo abaixo de uma barragem condenada? E o pior é que, menos de um mês antes da tragédia, eles haviam conseguido autorização para voltar a trabalhar na barragem.

Mas o fato é que, no calor do momento, ouvi coisas como: “a culpa dessa tragédia é de todos nós, porque não prestamos atenção no que estava acontecendo” ou “a culpa é nossa porque fomos nós que elegemos o governo”.

É o mesmo discurso usado na época do incêndio do Museu Nacional. Mas sabe qual é o problema disso? É que se a culpa é de todo mundo, ela acaba não sendo de ninguém. Quando alguém da Vale vai ser responsabilizado por Mariana? Quando alguém vai para a cadeia por Brumadinho? Dezenas de pessoas morreram. Dezenas de vidas foram tiradas por pura e absoluta irresponsabilidade. Isso é crime. Ou seria crime, em qualquer outra situação.

Mas não aqui no Brasil. Aqui, as coisas simplesmente desaparecerão em meio a lama. E, daqui há alguns anos, ninguém mais vai se lembrar do que aconteceu. É triste, mas é a mais pura verdade. Tão verdade quanto o fato de que aquela lama não esconde só cadáveres, mas muita irresponsabilidade e muita falta de vergonha na cara dos diretores da Vale.

E quem vai assumir a culpa? Eu é que não sou.

matheusprado.maori@gmail.com | Web |  + posts

Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.

Referências Bibliográficas

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