Aprenda de uma vez como “mostrar” uma cena para os seus leitores sem soar irritante

Em cursos, oficinas e até mesmo em blogs pela internet, um dos pontos que as pessoas mais falam é sobre “mostrar, não dizer”. Mas o problema é que ninguém explica muito bem como isso deve ser feito. Esse é um dos erros mais comuns dos jovens escritores, para não dizer o mais comum. Mas, felizmente, também é muito fácil de corrigir.

O objetivo desse post é tentar explicar um pouco da técnica de mostrar ao invés de dizer. Confira o exemplo abaixo:

Maria parou o carro e abriu as janelas. De onde estava, conseguia ver o vendedor de lanches do outro lado da rua ao mesmo tempo em que ele discutia com um dos seus raros clientes. Mesmo estando a alguns metros de distância, ela conseguia sentir o cheiro do Ketchup. Os gritos do cliente quebravam o silencio monótono do fim de tarde.

O que você conseguiu perceber lendo o texto acima? Repare bem. Todos os verbos usados dizendo o que Maria sente e vê ao invés de mostrar ao leitor para que ele possa ver e experimentar essas sensações com ela.

Cada vez que você for escrever que um personagem viu/ouviu/sentiu alguma coisa, tente reformular a frase para mostrar ao leitor exatamente o que acontece quando o personagem está vendo/ouvindo/sentindo. Fazer isso parece muito mais difícil do que é, na verdade.

Na maioria dos casos, você só precisará fazer alguns recortes nas frases e substituir algumas palavras. A diferença é sutil, mas pode gerar resultados surpreendentes. Confira o novo exemplo para entender bem o que eu estou falando:

Maria parou o carro e abriu as janelas. Quando girou a chave e olhou para o outro lado da rua, a única coisa que conseguiu ver foi o vendedor de lanches, que discutia como a única pessoa além dele naquele lugar. “Assim você acaba comigo, cara. Qual é o seu problema? Acha que eu sou milionário?” o homem gritou. “Esse é o preço e sempre foi assim. Eu não tenho culpa se você não tem dinheiro.” O vendedor respondeu. O cheiro adocicado do Ketchup flutuava no ar, atravessando a rua e enchendo a cabeça de Maria com memórias de infância. A noite estava chegando, mas o seu trabalho estava apenas no início.

Conseguiu entender a diferença? O simples acréscimo do diálogo entre o vendedor e o cliente já cria um clima e faz com que o leitor preste atenção no que virá a seguir. E a descrição do cheiro do ketchup, ligado as memórias de infância da personagem pode despertar memórias no próprio leitor, fazendo-o se importar com a cena.

Essas mudanças simples podem deixar os seus textos muito mais ricos, mas você também precisa entender que isso não é uma regra. Você não precisa sair alterando todos os seus textos para adaptá-los a este modelo. Tudo vai depender do que você quer transmitir. O segredo está na observação constante, na leitura compulsiva e na revisão dos seus textos.

Sempre que possível, tente reescrevê-los de uma forma diferente e compare qual transmite melhor as suas ideias. Qual causa mais sensações. Se puder, peça para alguém ler e te explicar quais sensações o texto causou. Isso sempre ajuda.

E se atente a única regra realmente inquebrável da escrita: Você só será um bom escritor se praticar muito. Escreva sempre que puder. Pratique até não poder mais. Isso fará todo a diferença na sua vida.

Isso é tudo por hoje. Nós nos vemos em breve com mais algumas dicas. Até breve e boa escrita para você!


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Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.

Referências Bibliográficas

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